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Memórias de Seu Bravo

Memórias de Seu Bravo

Quem por aqui passa, acaba por visitar um pouco da memória viva do nosso fundador, José Renato Bravo. Um homem de muitas histórias e estórias que, dentre muitos hobbies, gostava muito de escrever. Separamos aqui alguns de seus artigos para ir compartilhando ao longo dos nossos dias e eternizarmos os causos desde cidadão que pintou este restaurante no alto de Sobradinho e que fazem parte do que somos. Esperemos que gostem!

SANTO DE CASA

Renato Bravo

            Fazia um frio de arrepiar na Zona da Mata. Era junho de 97 e a gente se esmerava na motivação de pequenos produtores rurais de um encantador recanto mineiro para as oportunidades oferecidas pelo turismo rural.

           O objetivo era levar a nossa própria experiência de exploração turística na agricultura familiar, já que ali sobravam exemplos de produção, beleza cênica e talento para tanto – uma gente humilde, naturalmente hospitaleira. Pensei comigo: vai ser mamão com mel.

           À medida que se compunha a mesa das autoridades, a temperatura ia caindo drasticamente e o pessoal, já meio encolhido, tentava driblar o ventinho gelado que invadia o salão paroquial, local onde nos reuníamos. É bom lembrar que, por ser bacia leiteira, a maioria dos ouvintes acordara de madrugada para ordenhar o gado e cuidar de roça. O cansaço seria naturalmente compreensível.

           E toma de falatório interminável, de más notícias sobre o preço do leite. Primeiro o prefeito, como de praxe, reclamando da falta de verbas, depois os secretários municipais, bajulando o primeiro orador. Em seguida, o gerente do Banco, o dirigente da Cooperativa, o vice-presidente da Câmara etc, etc. E o ânimo do povo encolhendo junto com o frio. As autoridades falavam, falavam e, na maior cara-de-pau, se desculpavam por terem que se retirar, em virtude de outros compromissos. Quais? O pessoal cochichava.

           Ao invés das sete, o assunto turismo rural só foi começar depois das nove da noite, com todos de saco cheio de tanta falação inútil. Ao final da lengalenga, perto da metade dos participantes escapulira, um a um, pelo cantinho do salão.

            Ufa! Enfim, era chegada a hora da palestra propriamente dita. Já iniciei afirmando que governo ajuda muito quando não atrapalha (aplausos). E pra tentar tapar o sol com a peneira, levantar o astral dos que ficaram para ouvir a “Prosa de Compadre”, gritei: -O que é isso, pessoal! Que desânimo é esse? Onde está a sua auto-estima, seu amor próprio, meu povo? Foi só falar no leite que vocês ficaram assim: cabisbaixos, descrentes, sô! Esta região é referência nacional do leite e de seus derivados, uai! Vocês são produtores invejáveis!

            Diante do espanto da platéia com meus gritos, reforcei, varando corredor afora: -A gente pega um avião com destino a Porto Alegre, extremo sul de nosso país e lá a sobremesa vem sempre acompanhada do quê? Do quê? QUEIJO DE MINAS! Depois embarcamos em outro avião e viajamos a Manaus, ponta norte do Brasil e, de novo, se pode saborear um doce amazônico acompanhado do quê? Do quê? QUEIJO DE MINAS! Nos melhores hotéis de São Paulo ou na Zona Sul do Rio, nos restaurantes de Salvador, Recife ou Fortaleza, a sobremesa vem servida juntinho do quê? Com o quê? QUEIJO DE MINAS! Continuava a berrar QUEIJO DE MINAS, procurando valorizar seu produto mais genuíno.

             Foi aí que um velhinho enrugado, cabecinha branca, dedinho levantado, que pedia timidamente a palavra, decretou, com a voz fininha: -Moço, o senhor tem toda razão… só aqui ni MINAS é qui num vale merda nenhuma!

             Passada a explosão de gargalhadas, respondi constrangido: -Meu caro amigo, o senhor tem a mais sábia das razões, visto que santo de casa não faz milagre. Basta lembrar que um simples copo de água mineral custa bem mais do que um litro de leite, não é mesmo?

            Por fim, a motivação pegou fogo, tamanho o interesse despertado. E ninguém mais arredou pé do salão paroquial. A participação esquentou de tal modo que a prosa foi terminar lá por volta da meia noite.

           A Zona da Mata ocupa hoje lugar de destaque no turismo rural mineiro. Assim, agregando valor ao leite e aos frutos da terra, aquela comunidade recuperou a altivez, profissionalizando filhos e netos nas pequenas propriedades rurais pela via abençoada da atividade turística.

           Anos depois tive a grata satisfação de receber no Trem da Serra, como estagiária, uma das jovens daquela comunidade rural, a Sílvia Parisi. Cursava ela, então, a cadeira de Turismo em Governador Valadares, MG. Sua intenção no estágio não era a de simplesmente cumprir um preceito universitário, mas a de solidificar conhecimentos para apoiar os pais, hoje donos de pousada rural.

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